


Nos beijos em teus seios ao amor total,
foi apenas o instante da paixão
no tempo imaturo, no amor irracional,
num romance curto intensamente emocional.
As portas do teu corpo se abrindo
tornaram apoteótico os nossos desejos...
A tua fogosidade desabrida
projectam a fome dos teus espasmos .
Mas contigo vinha mistério
envolvendo-me nos teus enigmas,
repentinamente tudo se dispersou
e vi o futuro projectar-se
no passado.
1982 (Filó)


Decididamente não sei
como pensei encontrar em ti
a serenidade dos Deuses
a paz e amor que desejo.
Meu espírito desagua,
nesse longíquo e misterioso nada,
perdendo a esperança ténua
que meu corpo anceia
quando nasce a madrugada.

Direi apenas as palavras de amor
que te dedico, envolvido na imagem inicial! . . .
Uma falsa imagem! . . .
Direi as que te envio pelo espírito
as que te escrevo nas memórias de um mês;
as que a minha boca depositou no teu corpo
e as que transformaram minha vida
em Primaveras floridas.
Direi apenas as palavras usuais e amarguradas,
drogadas pelo mau uso,
as que mentem nos amores,
que solidificam as paixões,
envenenam romances
e destroem os amantes . . .
As que iluminam os teus passos,
para contar a nossa história,
uma pobre história de um homem
que ama uma mulher.
Direi apenas as palavras de paixão
que te arremesso em facadas
que me dilaceram, sobre o espanto
da falsidade, da hipocrisía
e da mentira ignóbil.
As que te arrancaram do túnel sombrio
por onde passeias;
para outro que meus olhos iluminavam;
as que te ofereço numa vermelha rosa
de saudade, as que destruíste
na anciedade da felicidade fácil.
Direi apenas essas . . . mais nenhumas!

Ligados pela mesma vontade
sonhamos juntos o mesmo sonho . . .
Nos teus seios deposito meus beijos
na luz que te decora o contorno.
Ileso, acabo de saber da tua lealdade
enfim, num horizonte melhor,
vaporiza-se a gota de lágrima
que teimava visitar minha boca solitária.
Seguros no mesmo impulso
o mundo estremeçe ao nosso abraço
e os nossos lábios selarão este amor.
Nenhum humano ou desumano
poderá destruír o indestrutível.
1982 (Filomena)

A memória inútil do
teu amor revivido
embebeda-me na noite
na luz submersa
do teu corpo decomposto.
Deponho os gestos na lentidão
do tempo, ergue-se em mim a
palidez d'um morto e sinto-me
soçobrar na violência da tua
substância de vitória.
Na vastidão terrível da saudade
amargurado, espezinhado e destruído,
a tua ausência o meu desencanto
e a tristeza imerssa do desalento.
Os teus lábios são da noite a tua sede,
da sombra fantástica a eloquência.
Resumo-te a dois passos de dança,
três jogadas de ténis, uma carícia
breve e eis-me a beber de
bruços a loucura.
1981

Estranho a tua apoteose
a tua pujança evadida
quando do tempo era a morte
de uma paixão perdida.
O amor sibila,
a tontura embriagada do silêncio,
beijo a beijo, como se ainda estivesse vivo,
verdadeiramente vivo e levas lá dentro,
bem lá no fundo, gota a gota
o orvalho dos mortos.
Lembro das noites, fugazes segredos
de um amor por ti corrompido.
è a memória tresmalhada sobre o tempo,
ao alcançe do teu gesto interdito.
Outras tentaram a presença,
ardentes e vigorosas,
nas fronteiras do desespero.
E era tão fácil agarrar qualquer opção
mas quis insistir no mistério,
no ardor inconstante das tuas palavras,
numa noite vazia, tão grande, tão negra,
inexplicavelmente contente.
Debruço-me sobre o passado, o nosso,
e transfiro a despedida num perpétuo
encontro com teu corpo exaltante,
no meu mundo exilado
no exílio da vida.
1981

Não sei porque vivo vagamente,
o calor que eu perdí,
nasceu de ti.
Coragem alma possessa,
o rasgão está aberto.
Apenas um estalido de dedos
e a morte encarrega-se do resto.
Talvez desista, tanta tristeza e a vida
é tão bodenga.
Todos rastejam na lama poluída
no pântano do tempo.
O fardo que transporto dos
amores inóspitos, não sei se será vida,
lodo, exactamente o lodo
da agonia da morte.
Tudo esmoreçe, a tua
imagem esvaiçe pouco a pouco.
Tudo se desmorona e a queda
é livre, o abismo é profundo
e a morte espera.
Os últimos tempos foram o sepulcro
dos meus escombros.
Houveram noites de embriaguez
e palavras.

Numa vida coberta de desânimo
rasteja no interior da alma
ignorada e inerme,
o mais puro amor do mundo.
O desespero fixa teu rosto
nas grades do grito
e a fisionomia da amada
não me abandona
na bebedeira do infinito.
Sigo no meu silêncio na rota
do abandono, repara meu amor:
A verdade dos gestos,
o carinho nas minhas mãos
era uma mensagem,
era o desejo do amor
em explosão.
Quebraste o encanto,
destruíste o significado.
A dor sentida foi lágrima de revolta.

Renego a solidão
e não consigo explicar,
sinto-a rasgar-me o peito
e a dor penetrar-me dolorosamente.
E tu dizes que a solidão
é uma boa companhia . . .
Mentes, vergonhosamente nesse teu jeito desleal de mentir.
Abomino as mulheres mentirosas
conheço bem aquelas a quem
a mentira diferiu . . .sei que
todas jazem algures,
nos cemitérios da vida.

A noite fecundou
o dia abortou
e foi o nosso amor . . .

A tua boca que eu reconheço,
nos teus lábios em que me embrenho,
a carruagem em que me detenho,
no teu corpo que leve roço . . .
Sou visitante fugaz:
Turista em Sernada onde te amei
algures, sobre o teu leito,
verás o céu pela "window".
1981 (Talinda)

Estou no local onde se espraiam
as meditações nocturnas:
Aquelas inspiradas pelo desespero.
Terrores experimentados, visões macabras,
imagens negras, um mundo tenebroso
no centro uma massa de neurónios em expansão.
O medo apodera-se de mim como se
esperasse a lucidez no rumo
da morte veloz.
Todavia é assim:
O amor nunca vem só, traz dor
e eu acredito no amor, ele existe
em qualquer parte e o que importa
é localiza-lo, ainda que escondido
no meio de uma tormenta,
na tormenta da procura.
Amor-destino uma junção real.
A decepção e o medo que me envolve,
na existência do amor,
em qualquer mulher,
em qualquer parte do mundo,
e eu procuro-o.
1981


Porque hoje é domingo,
será domingo e nada farás do que dizes.
A acordar não saberás o que fazer.
Depois a rotina habitual; lavar a cara,
maquilhar o rosto, pintar os olhos,
tomar o pequeno almoço, ocupará
meio-dia.
Hoje passarás a tarde a dormir,
ás voltas com um sonho,
ás voltas com um amor,
ás voltas com uma saudade . . .
Á noite sairás, irás a um cinema, ao
restaurante, e por certo irás dançar.
Ao voltares para a cama,
vir-te-ão á lembrança . . .
Locais onde juntos, fizemos amor,
pessoas que foram importantes para ti,
o amor o afecto e a ternura
que todos te juraram eternamente,
a paixão, a dedicação
e o profundo amor que só alguns
são capazes de dar
com pureza . . .
Amanhã, onde quer que vás,
poderás estar só.
Noutra casa,
noutra rua,
noutro bairro,
noutra cidade.
Serás mordida, espezinhada,insultada.
A língua ser-te-á cortada, os ossos quebrados,
a tua fotografia será colada,
no edital das cabeças a prémio.
O dia será triste, a noite sem aventura,
todos os que abordarás falarão em calão . . .
Amanhã estarás só e não verás as estrelas.

Oh angustia da anciedade
em que padeço horrivelmente
pelo bem que perdí no sofrimento
da esperança de voltar a ouvir-te dizer . . .
MEU SOL . . .
MINHA VIDA . . .
Tanto me deste, na sensualidade
terna da tua paixão quente louca
enibriante, nos teus dedos
eloquentes, que procuravam
constantemente o corpo do meu corpo
na progressão e na volúpia da conquista.
Que saudades meu amor.
Os momentos foram únicos como
as contorções dos nossos corpos
perante as violentas explosões
dos nossos orgasmos.
MEU SOL ...
MINHA VIDA . . .
Como desejaria ouvir de novo
a tua boca extasiada de paixão
pronunciar,
MEU SOL . . .
O calor, o carinho dado por inteiro.
Quanto mais davas
mais crescia e era mais amor.
MINHA VIDA . . .
MEU SOL . . .

Oh! meu sol !
Quero ouvir-te chamar-me,
Oh! meu sol !
Aconteça o que aconteçer,
enquanto tu viveres
tenho luz.
Se por esse mundo fora,
tiver de vaguear,
onde estiveres será
o meu lar.
Sempre que de ti
quizer reviver a paixão
é só recordar tua voz
amante e quente pronunciar,
Oh! meu sol!
1981 ( Luisa)



Quando em silêncio passas entre as folhas,
uma ave renasce da sua morte
e agita as asas de repente;
tremem maduras todas as espigas
como se o próprio dia as inclinasse,
e gravemente, comedidas,
param as fontes a beber-te a face.
1981



Recorto na dor impressa
nos olhares que se consomem,
o perfil de um outro homem
que em termos de amor se meça.
Tanta semente se perde
em montanhas arenosas !
Tantas agruras rochosas
à beira de um prado verde !
tanto pão por amassar !
tanta boca por sorrir !
Oh ! quem pudesse partir
e um dia reencarnar !

Depois de te conheçer, concebo a paisagem
para o poema que te dedico:
A paisagem é a neve, o lago, a serra,
postos nos lugares exactos do tempo.
A neve torna alvos os teus seios,
o lago dá quietude aos teus olhos . . .
A serra, plenitude aos meus desejos.
Com a luz da tua vida, vivo a noite . . .
substituo o luar por um sorriso teu.
Imaginada a paisagem que te vigora,
suponho-te sobre ela . . .
falo de ti colocando-me ao teu lado.
1980 ( Luisa )


Emparedado contra os sonhos, fico
contigo, imagem da saudade
que cerceiam e cercam o rosto,
sem descobrir se te amei na verdade.
Esvaindo o clamôr do meu desejo . . .
no tempo sofro a incerteza.
Julgo ter direito ao meu ensejo
triste castigo da minha avareza.
Imaginando-te junto a mim . . .
o teu corpo, minha imagem querida.
terno companheiro da minha existência
doce amante da minha vida.
Cabelos loiros de olhar calmo . . .
suavemente apaixonada,
Oh! meu Deus como é possível
sempre o reencontro do nada.
1980


Os teus olhos férteis de promessas
vão-se, e a noite fica fechada.
E é inútil esperar.
O teu corpo completo abre
na madrugada.
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